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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Quanto tempo?


De repente lhe ocorreu que algum tempo já se havia passado...
Foi até o espelho. Passou as mãos nos seus cabelos brancos, suas rugas...
Quanto tempo? Quando deixou de ser um ser humano? Quantos ainda sobravam? Quantos compromissos havia deixado de lado?Para quantos cargos já havia sido promovido? Quanto tinha se demorado em construir a sua casa dos sonhos? Quanta vida havia se perdido? Qual foi a recompensa?
Olhou em volta. Sua casa tão linda, com uma mobilha tão cara... Tão vazia!
O despertador tocou, anunciando o horário de mais uma reunião. Decidiu-se por não ir.
Hoje pôde notar como tudo tinha sido em vão. Nem se quer se lembrava do que vivera nos últimos anos... Talvez porque simplesmente não vivera.
Pensou em ligar para algum amigo. Mas não os tinha. Pensou em visitar algum parente. Mas depois da morte de seus pais, não manteve contato com nenhum deles. Não tinha namorada, apenas algumas noitadas com lindas garotas e muito dinheiro na carteira. Não havia ninguém por ele...
Mas já era tarde para arrependimentos... Isso não lhe foi permitido...
O coração que já não estava tão bem, o traiu de vez.
Logo ele, um homem tão rico e tão influente...
“Não tempo tinha a perder, era muito atarefado e não se dava ao luxo de abrir uma exceção”.
Sendo assim, depois de uma forte dor, suas vistas escureceram, seu corpo todo amoleceu, e suas forças acabaram por inteiro. Deslizou lentamente na parede que usara para apoiar-se. Chegou ao chão. E ali, adormeceu... Eternamente...

Seu corpo, encontrado pela empregada doméstica foi velado, sim. E o seu velório, claro, estava repleto de queridos amigos, com queridas lágrimas, de queridos olhos, que tanto queriam aquela querida fortuna que não havia deixado herdeiros.

Por: Letícia Rosa

4 comentários:

  1. Texto forte e interessante!

    Tenha um lindo final de semana.

    Beeijo

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  2. Uma morte trágica. Por isso que é bom aproveitar a via e ter histórias pra contar.

    Beijos !

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  3. Como eu amo entrar no seu cantinho.

    Amei hoje de novo.
    Beijos.

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  4. A mais pura verdade!
    Crítica ácida e prosa boa!

    Lindo!

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